Fórum A Revolução do Novo, de VEJA e EXAME, promove debate sobre a transformação do mundo

O fórum A Revolução do Novo, realizado nesta segunda, 5, em parceria com a Coca-Cola Brasil, reuniu em sua terceira edição gestores e líderes de destaque no mercado brasileiro
  07/06/2017
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Na abertura, Walter Longo, presidente do Grupo Abril, destacou que o universo digital traz infinitas possibilidades, mas alguns desafios muito relevantes. “Vamos falar aqui sobre um tema que temos discutido, que é exatamente o Trilema Digital. Quem assistiu à série Black Mirror vê nela críticas mordazes à era digital e ao seu impacto na sociedade”, disse Longo. “Meu objetivo aqui não é criticar, mas dizer que precisamos estar alertas sobre alguns desafios que estão à nossa frente”, completou. Ele cita três grandes tendências que estão preocupando cientistas sociais e tirando o sono de empresários e executivos: a exteligência, o tribalismo e o compartilhamento.

O conhecimento não precisa mais ser armazenado no cérebro, observa Longo, uma vez que basta um toque no smartphone para se ter acesso a um mundo de informações. “O problema é que, se tudo o que eu tiver de guardar, eu fizer em outro lugar que não o meu cérebro, os neurônios não se conectam e não fazem sinapses. Não há geração de insights”, afirma Longo. O segundo tema preocupante desse trilema digital é o tribalismo que, segundo ele, motiva as pessoas a só lerem o que querem, ouvirem o que gostam, e assistirem ao que desejam. “Se entro no Spotify e peço para ouvir pagode, para o resto da vida sempre vão sugerir pagode”, disse. Na visão dele, estamos assistindo ao fim do contraditório e à perda da opinião. “E isso traz como consequência pessoas cada vez mais sectárias”, disse.

A terceira característica que Longo apresentou dentro do Trilema Digital é o compartilhamento. Ele afirma que é preciso avaliar o impacto econômico dessa tendência de consumir menos e compartilhar mais. “Menos carros particulares e mais carros compartilhados, menos hotéis e mais casas compartilhadas, menos escritórios e mais espaços de coworking. Essa é uma tendência sem volta, mas que traz o risco de criar a desaceleração da espiral econômica. Vamos ter aí na frente um desafio”, disse Longo.

O evento seguiu com a apresentação O impacto, a evolução e o futuro dos valores éticos no mundo contemporâneo, do ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso. “É impossível não sentir vergonha pelo que acontece no Brasil”, disse ele sobre a corrupção no país. “Ela se tornou um modo de vida. As pessoas se surpreendem com o que, de certa forma, sempre souberam”, afirmou. Barroso acredita, no entanto, na possibilidade de um novo começo, apesar do custo moral e econômico para o país. “A história avança para o bem. A busca da felicidade, o respeito ao próximo e a justiça são os valores de ontem e continuam a ser os valores do futuro”, disse.

De acordo com o economista Samuel Pessoa, economista do IBRE/FGV, a crise econômica e política gerou para o Brasil a maior perda de PIB per capita dos últimos 120 anos. Durante a palestra O desenvolvimento desejado – a sociedade do futuro não pode ser tão desigual, ele afirmou que não dá para falar que a perda de PIB per capita é maior por falta de dados. “Tudo indica que se tivéssemos dados, poderíamos retroagir para o período da Regência, que foi extremamente difícil. Ao final de 2017, vai ser 10% menor do que em 2013. É o número de um país que passou por uma guerra”, observou. Para a presidente da ONG Comunitas, Regina Siqueira, é preciso fortalecer no âmbito dos municípios a discussão sobre equilíbrio fiscal. “As políticas sociais foram descentralizadas para os municípios, mas não os recursos. Tudo bem haver o pacto entre o público e o privado, desde que a agenda seja aberta e transparente para a sociedade, que irá fazer o controle”, disse.

O evento abriu também o debate sobre A era dos extremos – a polarização das opiniões na sociedade. “A dificuldade não é nem de dialogar, muito menos de fazer algo junto. A dificuldade é simplesmente de aceitar o convite e estar no mesmo local de alguém que você considera seu inimigo da sociedade”, comentou Denise Chaer, fundadora do Novos Urbanos Laboratório de Inovação Social, uma plataforma de diálogo intersetorial. Segundo Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, há três anos existem dificuldades de se colocar na mesa partes opostas desse processo. “Sempre tem a preocupação de encontrar consenso, mas se não tivermos a capacidade de valorizar as diferenças, vamos ficar com consensos superficiais”, disse Magri.

Celia Cruz, diretora da do Instituto de Cidadania Empresarial, lembra que 1% da população detém 50% de toda riqueza no mundo. “E isso gera extremos de quem tem muito e de quem está na pobreza”, destacou. “Quando temos uma sociedade muito partida, é difícil avançar o diálogo em torno de uma mesma causa. Não podemos só depender da filantropia, mas acessar novos pools e trazer soluções inovadoras para resolver problemas sociais”, completou Celia.

Na palestra que encerrou o evento – A fadiga da política – a nova onda nacionalista e a antipolítica -, Demétrio Magnoli, professor da USP, explicou como setores que ficaram de fora dos benefícios da globalização encontram, no nacionalismo e na extrema direita, uma forma de expressar sua insegurança. “Os órfãos da globalização, indignados com a perda de emprego e de renda, escolhem o nacionalismo para enfrentar seus medos”, concluiu o sociólogo.

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